Especial 13 anos sem Stanley Kubrick
De Olhos Bem Fechados (1999)
Dia 13 de julho de 1999, estreava nos Estados Unidos o último filme da carreira de Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados”. Filme assistido por muitos, menos por seu diretor, que havia morrido quatro meses antes, ainda durante a fase de edição do filme. E a impressão que temos ao assistir esse filme é que tem alguma coisa faltando.
O filme não é ruim, e nem poderia ser, levando em conta o elenco: Tom Cruise e Nicole Kidman, que então eram o casal mais badalado de Hollywood. O casal interpreta Bill e Alice Halford, um médico e uma escultora de prestígio, que estão passando por uma crise no casamento. O filme inicia com Alice esplêndida em um vestido de festa, implorando por um elogio do marido. Bill elogia a esposa, contudo, não olha para ela. Após isso o casal vai a uma festa de gala na mansão de Victor Ziegler (interpretado por Sidney Pollack), e lá cada um deles flerta com desconhecidos: Alice, ligeiramente bêbada, se deixa seduzir por um elegante senhor húngaro, enquanto Bill aceita a bajulação de duas belas modelos, que querem levá-lo para “onde o arco-íris termina”. Nada de relevante acontece nos dois casos.
Ao chegarem em casa, o casal fuma maconha em seu quarto, e Alice, sob efeito da droga, relata um breve episódio vivido nas férias do casal, no ano anterior. Ela afirma que, na ocasião, olhou para um oficial da Marinha, no saguão do hotel em que a família estava hospedada, e apaixonou-se tão perdidamente, mesmo sem sequer ouvir a voz dele, que teria largado Bill e a filha de imediato, se o homem houvesse pedido. Bill fica perturbado, mas não tem tempo de discutir o assunto. O telefone toca. É Marion, a filha de um paciente avisando-o da morte dele. Bill põe um sobretudo e vai à rua. É o início de um passeio interessante pelas ruas de Nova York.
Bill vai até a casa de Marion e ao entrar no quarto em que está o paciente morto, recebe outro choque; Marion, que está compromissada com um homem que a levará para o distante Wisconsin, nutre um amor secreto pelo Dr. Bill. Ainda mais desorientado, Bill sai da casa e caminha sem rumo pelas ruas, disparando uma série de encontros surreais. Primeiro é uma prostituta, depois um pianista amigo de juventude, uma loja de fantasias, e uma festa secreta de uma seita pagã que realiza orgias em que todos os convidados usam máscaras. A madrugada bizarra se prolonga em uma segunda noite, em que Bill tenta acertar as decisões que havia tomado na noite anterior.
Stanley Kubrick presenteia o espectador com uma coleção impecável de sequências hipnóticas, que deixam tanto o protagonista como a platéia em uma espécie de transe. Kubrick se vale de uma trilha sonora minimalista, executada por um piano que martela notas de forma insistente e um tanto desconexa. O cântico macabro ouvido durante a cerimônia religioso-sexual, é a jóia da coroa.
Misterioso, a música fornece o exato toque sombrio que o público necessita para levar a cena a sério. A impressão é acentuada pela sensação estranha de ouvir pessoas dialogando atrás de máscaras, de maneira que não se pode ver a expressão facial ou o movimento dos lábios das pessoas.
O verdadeiro tema do filme, que é a discussão sobre sonhos e realidade, fica escondido durante muito tempo, mas acaba sendo jogada nos olhos da platéia, em um diálogo que sintetiza o filme com absoluta clareza. O diálogo culmina com a frase “nenhum sonho é apenas um sonho.” Ou seja, no sonho, fazemos coisas que consciente ou inconscientemente gostaríamos de estar fazendo na vida real. Dessa forma, o sonho é uma representação da realidade interior de cada ser; seus medos, suas inseguranças, suas vontades, etc.
O filme é longo e possui um ritmo lento, sendo composto por tomadas longas e com poucos cortes, como a cena da conversa do casal no quarto e a conversa de Bill e Ziegler junto à mesa de bilhar. Levando em conta que Stanley Kubrick tinha o costume de fazer cortes em seus filmes mesmo semanas antes da estréia, podemos dizer que o filme é uma obra incompleta. Não se equipara a nenhuma das obras–primas de Kubrick, como “2001: Uma Odisseia no Espaço” e “Laranja Mecânica”, mas é um bom filme que, assim como todas as obras de Kubrick, nos leva a reflexão ao abordar as nuances comportamentais desse ser tão estranho que é o homem.
Por Diego Dutra
Por Diego Dutra




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