Especial 13 anos sem Stanley Kubrick
Laranja Mecânica (1971)
Laranja Mecânica (1971)
Laranja Mecânica é um filme que pode levantar dúvidas e levar a questionamentos morais. Devido a esse filme, adaptado da obra de Anthony Burguess, Stanley Kubrick é apontado por muitos como um símbolo da desconstrução da realidade. Por outros é tido como a consciência de uma sociedade que caminha, apressadamente, para a extinção dos seus valores e de si própria. Kubrick já abordava esse tipo de tema em seus outros filmes, como em “Glória Feita de Sangue”, que conta a história do general que ordena um trágico ataque suicida, e põe a culpa em três soldados que acabam condenados a morte. Ou em “Lolita”, com o obsessivo professor Humbert, com óbvias tendências pedófilas. Mas em Laranja Mecânica, Kubrick chega a um nível de dissecação do comportamento humano nunca antes alcançado na história do cinema.
O filme se passa em uma Inglaterra ligeiramente futurista e acompanha Alex DeLarge, um adolescente cujos gostos variam entre “Beethoven, estupro e ultraviolência”. Ele é o líder de uma gangue, de outros três jovens: Georgie, o oportunista, o cérebro da traição, Dim, imitador, subserviente e “tapado”, com um comportamento infantil, e Pete, pouco atuante, mero coadjuvante dos atos dos outros três. Alex lidera-os, e os chama de “drugies” (do russo drug, que significa amigo). Alex narra o filme em "nadsat", um idioma que mistura o russo, o inglês e o cockney. Algumas edições do livro possuem até um dicionário de nadsat, para melhor situar o leitor. Em nadsat, rozzer é polícia, drugo é amigo, tcheloveque é homem, devótchca é moça, moloko é leite. Esse vocábulário fica marcado na mente daqueles que assistem o filme.
Depois de vários atos de "ultra-violence" perpetrados por Alex e pelos seus companheiros, o primeiro acaba por ser traído por eles, o que fará com que seja encarcerado. Começa aí a segunda parte do filme. Depois de cumprir dois anos da pena a que havia sido condenado, Alex oferece-se como voluntário para um processo inovador do governo, o Tratamento Ludovico, após o qual Alex ficaria incapacitado de exercer qualquer tipo de violência sobre os outros. Será Alex curado? Isso é possível? O que significa ser curado? É possível “extirpar do infrator toda a sua maldade”? Esses são os questionamentos que nos surgem nesse ponto do filme.
"Laranja Mecânica" é, assim como o seu antecessor na filmografia de Kubrick, "2001: Uma Odisseia no Espaço" (que avaliamos ontem), uma experiência cinematográfica sem paralelo. É outra sincronia perfeita entre imagem e som – a montagem está perfeitamente ritmada de acordo com a trilha sonora. A mise-en-scéne é extraordinária, com todos os movimentos dos atores no espaço totalmente controlados para se conseguir o melhor enquadramento. A sucessão de momentos fulgurantes é inesquecível: a cena da luta entre as gangues no teatro abandonado, o êxtase de Alex ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, a tortura e o horror do "Tratamento Ludovico" são apenas alguns exemplos.
Os questionamentos morais do filme são um detalhe à parte. Stanley Kubrick nos faz sentir um misto de compaixão, repulsa e empatia pelo anti-herói Alex DeLarge. O cruel Tratamento Ludovico faz uma analogia ao sistema prisional dos nossos dias, que tem a missão de regenerar os infratores, missão esta que falha dia após dia. As conspirações políticas envolvendo Alex ilustram como no meio político tudo, tudo mesmo, pode ser usado como vantagem. Esse tudo inclui desde criminosos regenerados até jovens suicidados. É tudo negociável.
A trilha sonora do filme é outro detalhe à parte. Rossini e Beethoven narram essa violenta história com perfeição. A Nona Sinfonia é recorrente no filme, aparecendo em várias cenas, em diversas formas (destaque para uma versão eletrônica). A “The Thieving Magpie” de Rossini é outra música que aparece várias vezes, imortalizando as cenas do filme na mente dos espectadores. A trilha sonora de Laranja Mecânica se vinculou tão fortemente às imagens que é impossível imaginá-lo com outra trilha sonora.
Polêmico, violento, que nos induz a reflexão, esse é Laranja Mecânica. Com a direção de um gênio, a obra de Anthony Burguess se tornou um clássico do cinema, uma análise do comportamento humano regada a Beethoven.
Veja o trailer legendado do filme:
Por Diego Dutra




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