Especial 13 anos sem Stanley Kubrick
O Iluminado (1980)
O nome de um é Stanley Kubrick. O nome de outro é Stephen King. Não há quem não tenha ouvido falar de pelo menos uma dessas figuras históricas. Kubrick, uma lenda do cinema, e Stephen King, uma lenda da literatura de suspense. O que acontece quando um decide adaptar a obra de outro? O resultado pode ser visto em “O Iluminado”.
O livro de Stephen King, “O Iluminado” já era relativamente famoso mesmo antes do lançamento do filme. Após o lançamento do filme, os fãs de Stephen King diziam que esse havia sido o pior trabalho de Kubrick, enquanto os fãs de Kubrick afirmavam que o diretor havia aprimorado o livro de King. Isso porque o filme se afasta bastante da trama do livro, com um final completamente diferente.
Podemos dizer que Kubrick não adaptou o livro; ele criou um novo “Iluminado”. Kubrick retirou do filme todos os monstros criados por Stephen King, e deixou como foco principal o estranho Jack Torrance, interpretado por um seguro Jack Nicholson.
A trama do filme é simples. Jack Torrance arranja um emprego de “caseiro” no Hotel Overlook, que ficará totalmente vazio por meses devido às nevascas. O hotel tem um histórico sangrento, mas Jack não se importa. O filho do casal tem um amigo imaginário que lhe conta coisas sobre o futuro, fazendo com que a criança possua uma espécie de iluminação. Em uma de suas profecias, o amigo imaginário alerta a Danny para que não fosse ao Hotel Overlook. Os pais decidem ir mesmo assim; afinal quem liga pra opinião de um amigo imaginário de uma criança? Dessa forma, a família Torrance se encontra enclausurada em um misterioso hotel abandonado. A partir de então, a personalidade de Jack começa a mudar lentamente, transformando o bondoso pai ex-alcóolatra em um assassino em potencial.
Os ambientes do filme hotel são incríveis. Salas enormes, com muito espaço vago dão ao filme um ar altamente perturbador. A fotografia é incrível, com cenas minuciosamente construídas para dar ao filme um tom sinistro e mostrar por meio de detalhes sutis a lenta transformação de Jack. Se somarmos a isso a trilha sonora, com músicas do compositor húngaro György Ligeti que misturam sons de máquinas com gritos abafados, temos um filme de fato perturbador.
A fama de perfeccionista de Stanley Kubrick ficou comprovada depois de O Iluminado. Segundo o livro dos recordes, “O Iluminado” é imbatível no quesito número de tomadas por uma cena. Na cena em que Wendy foge de Jack pela escada, foram necessárias 125 tomadas. O diretor filmou a cena do sangue no elevador em apenas três tomadas. Parece pouco, mas não foi. Para uma cena de poucos segundos foram necessários nove dias apenas para preparar o cenário. Kubrick teria dito várias vezes: “Isso não parece sangue”.
As atuações são bastante contrastantes. Vemos Jack Nicholson incorporando perfeitamente seu personagem, como podemos ver na sequência do bar e na cena épica (que por sinal foi improvisada por Nicholson) do “Here is Johnny!”. Já Shelley Duval não conseguiu o mesmo. Shelley estava muito travada para protagonizar Wendy, e Kubrick só faltou agredir fisicamente a atriz, tamanho o número de broncas que levou do diretor. Como comentado antes alguns takes tiveram que ser repetidos mais de 100 vezes para ficarem do jeito que Kubrick queria. Pelo menos o resultado final foi convincente. Até o jovem Danny Lloyd, no papel do filho do casal, se saiu melhor do que Shelley.
O filme trouxe uma inovação ao mundo do cinema – a steady cam – um dispositivo que diminui a trepidação da câmera quando o cameraman precisar correr com ela nas mãos. Podemos ver esse equipamento em uso na cena em que o câmera persegue o triciclo de Danny pelos corredores do Overlook e na cena do labirinto, no final do filme.
O Iluminado não é um filme comum de terror, daqueles com sustos a cada dez minutos e criaturas assustadoras que te aterrorizam quando você apaga a luz pra dormir. Assim como já havia feito em Laranja Mecânica, em O Iluminado Kubrick faz uma análise do comportamento humano. Nos mostra o quão pouco é necessário para enlouquecermos. Ou será que já somos loucos e somente não temos consciência disso?
Veja o trailer original do filme:
Por Diego Dutra




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