Especial 13 anos sem Stanley Kubrick
Nascido Para Matar (1987)
De filmes de guerra o cinema está cheio. Guerra do Iraque, Guerra do Golfo, Primeira e Segunda Guerras Mundiais e Guerra do Vietnã se tornaram matéria para muitos roteiristas e diretores criarem filmes de sucesso. Mas poucas pessoas fizeram filmes de guerra tão bons quanto Stanley Kubrick.
“Nascido Para Matar” foi o segundo filme de guerra de Stanley Kubrick, sendo que o primeiro foi “Paths Of Glory” (traduzido no Brasil como “Glória Feita de Sangue”) que se passa na Primeira Guerra Mundial e traz mais conflitos morais e éticos do que bélicos. “Nascido Para Matar” se passa na época da Guerra do Vietnã, e pode ser dividido em duas partes: a preparação dos soldados e a guerra em si.
A primeira parte do filme acompanha o treinamento dos recrutas antes de irem à guerra. A primeira cena é extremamente marcante; vemos todos os soldados em fila tendo suas cabeças raspadas ao som de “Hello Vietnam”, de Johnny Wright. Após isso vemos o duro e humilhante treinamento dos recrutas que estão aos cuidados do irônico e cruel sargento Hartman, interpretado magnificamente por R. Lee Ermey. Hartman quase não fala, apenas grita, e inicia dizendo “não faço discriminação; vocês são todos igualmente inúteis para mim”. Isso dá uma ideia do que está por vir. O treinamento é duro, e deixa claro seu objetivo: transformar homens em máquinas de matar. Mas logo no começo fica claro que o recruta Pyle não está se adaptando muito bem. Pyle é desajeitado, está bem acima do peso, e não consegue realizar certos exercícios. Devido a isso, Pyle acaba sendo punido pelo sargento Hartman, se tornando seu alvo preferido.
O ator Vincent D’Onofrio, em sua fantástica interpretação, nos mostra Pyle como um sujeito, inicialmente inofensivo e bobo, talvez com algum tipo de distúrbio psicológico, mas que, por causa das diversas agressões e humilhações, se desumaniza, se transformando em um monstro. Kubrick ilustra muito bem a mecanização dos soldados através dos comportamentos repetitivos dos mesmos, dos exercícios e dos hinos decorados (que são hilários, por sinal).
Nesse filme Kubrick juntou duas coisas que parecem impossíveis de se combinarem: o trágico e o cômico. Ao mesmo tempo que sofremos junto com Pyle durante seu treinamento e as constantes humilhações as quais é exposto, conseguimos rir das falas do sargento Hartman, dos hinos entoados pelos soldados e dos próprios trejeitos do recruta Pyle. Além disso, outro personagem, com um nome sugestivo, ilustra isso muito bem. É o recruta “Joker” (traduzido em português como “Hilário”), que recebeu esse apelido de Hartman por estar sempre fazendo graça com tudo. Mas a palavra “Joker” também se refere ao curinga, uma carta de baralho que pode mudar de valor dependendo das cartas que o jogador tem na mão. E o soldado Joker (interpretado por Mathew Modine) é exatamente isso: ajuda Pyle, demonstando compaixão pela sua situação, mas ajuda a espancá-lo quando todos decidem o mesmo; se alista como jornalista, mas quer ir no campo de batalha; possui um broche pacifista, mas tem escrito em seu capacete “born to kill” (nascido para matar, fonte do título do filme em português). O que vemos em Joker é um jovem perdido, que não sabe a que valores aderir, representando a inteira geração dos "baby boomers".
A segunda parte do filme mostra o cotidiano dos soldados no Vietnã. O absurdo da guerra é mostrado de perto, nos fazendo ver como a guerra é sem sentido. Kubrick revela que os soldados não têm a mínima consciência do que estão fazendo. Eles esbravejam contra o comunismo, mas ao que parece, não fazem ideia do motivo que os levam a matar e a destruir. Dessa forma, Kubrick mostra a burrice da guerra. Adotando em alguns momentos o tom de documentário, o filme alterna as cenas de ação (que são poucas em comparação com outros filmes de guerra), com “entrevistas” dos próprios soldados.
Se Kubrick dirige o filme com sua competência e genialidade habituais, deve-se também destacar a fotografia de Douglas Milsome. Douglas fotografa usando abundantemente o recurso da contraluz e abolindo as cores mais vibrantes, deixa o filme com um tom mais leve, contrastando com o clima tenso do filme.
O filme também é rico musicalmente, como podia-se esperar de Stanley Kubrick. O início com os versos de “Hello Vietnam” faz uma brincadeira com os estereótipos da guerra, e traz uma sequência de abertura que poderia ter sido maçante, mas é conduzida com maestria, tanto visual como musicalmente, capturando nossa atenção logo nos primeiros minutos. Os hinos que os soldados cantam são bastante cômicos, e falam de vários temas, desde partes íntimas das garotas do Alasca até o carinho dos soldados pelos seus rifles. O filme termina com uma cena que parece pertencer a um musical: os soldados saindo do campo de batalha em chamas, cantando uma música do Mickey. Mas ao começar os créditos, podemos ouvir a depressiva música “Paint it Black”, dos Rolling Stones, que pode simbolizar a transformação dos soldados, que tem seus corações “pintados de preto”, por assim dizer.
O que vemos em “Nascido Para Matar” é um dos filmes de guerra mais inteligentes que já foram feitos. Cenas de ação bem coreografadas, diálogos que criticam a sociedade americana, piadas de humor negro... com isso Kubrick, mais uma vez, nos leva a reflexão, e ao falar sobre como a guerra é sem sentido, nos faz pensar no porque de sua existência.
Veja algumas das cenas marcantes de "Nascido Para Matar":
Primeiros nove minutos:
Hino dos fuzileiros:
Punição de "Pyle":
Por Diego Dutra




Nenhum comentário:
Postar um comentário